domingo, maio 26, 2013

A do vizinho é sempre melhor

O ditado “a galinha do vizinho é sempre melhor que a minha” ganha impacto nos dias que correm. Se por um lado, tentamos acreditar que há valor e potencial humano, que a capacidade de adaptação é singular e até mesmo que o trunfo está na identidade e distinção, por outro, vive-se em constante estado de negação duvidando na capacidade do povo para superar a espiral depressiva e recessiva em que se encontram a sociedade e o país. 
O estado de negação mas também de subjugação ao “vizinho” retrata-se bem na postura dos nossos governantes nacionais, tendo como exemplo flagrante a atitude de subserviência demonstrada na passada quarta-feira, pelo Ministro das Finanças, Vítor Gaspar, deslocando-se à Alemanha para explicar a situação financeira de Portugal ao seu par do governo alemão. Depois admirem-se que Vítor Gaspar seja apelidado o ministro das finanças mais alemão de Portugal. 
Já não bastava a postura passiva e de inércia perante os ditames à troika, através da adoção da austeridade como único caminho possível para a suposta salvação nacional, agora aprofunda-se a dependência e incapacidade com esta prostração perante certos governantes europeus que nada mais querem do que a austeridade e a dependência dos outros estados, desta aparente “união” Europeia. Para espelhar este pensamento é bom recordar, que ainda bem recentemente, no passado dia 8 de Abril, o ministro alemão das Finanças, Wolfgang Schäuble, o mesmo a quem Gaspar foi prestar contas, exigiu mais austeridade afirmando que "depois da decisão do Tribunal Constitucional Portugal tem agora de tomar novas medidas". 
A atitude do governo da República revela vassalagem, imaturidade mas também passa um atestado de incompetência aos quadros do País que parecem ser incapazes de encontrar e delinear a estratégia para o Hoje e o Amanhã da nação. É preciso clareza e verticalidade nas posturas, porque quem se parece coerente em relação aos compromissos assumidos contradiz-se com estes exemplos, fazendo crer que não acreditam no país e, quiçá, até na sua própria competência. 
Das duas uma, ou assumem, de uma vez por todas, que os portugueses são incapazes e que os quadros de fora são melhores, ou então é hora de apostar nos seus pares para pensar e agir. Seguramente a solução passa pela segunda hipótese, porque, por mais que apreciemos o que é alheio, agir por Portugal deverá ser responsabilidade do seu povo que sente, que vive e que sonha. A fórmula para que não se deixe esmorecer a chama da esperança reside na força e na união dos portugueses, para converter as dificuldades em oportunidades, ao invés de assumir, em cegueira, aquilo que lhe é imposto. 
Quem nos momentos difíceis não tiver a humildade de reconhecer o erro, e até mesmo de honrar os sacrifícios que já foram suportados, não estará à altura dos desígnios que, hoje, se levantam. Se assim não for refuta-se um dos mais célebres pensamentos de Fernando Pessoa "tudo vale a pena se a alma não for pequena", porque nada valerá a alma de um povo se lhe for sequestrada a esperança de fazer acontecer. Pior do que falhar é persistir em procurar a solução junto de desinteressados e alheios à realidade. 

http://impresso.jornaldamadeira.pt/noticia.php?Seccao=12&id=245853&sup=0&sdata=2013-05-26