terça-feira, junho 19, 2012

Ética na Política


 Assiste-se hoje a um considerável descrédito da classe política. Cada vez mais defraudadas, as pessoas deparam-se com a discrepância entre aquilo que os agentes políticos prometem e aquilo que realizam. Muitos, à procura do mediatismo fácil e envencilhados no seu egocentrismo, esquecem que o mais importante é aferir os anseios e resolver os problemas da população, fazem da política um exercício de atos avulsos de comunicação e de ações elitistas. O sentimento que faz desacreditar a sociedade civil da política impõe, às instituições e organizações políticas, um estudo dos sinais e das causas, de modo a implementar estratégias para a participação política. Há dois grandes sinais que permitem aferir o afastamento dos cidadãos à política: 
Participação eleitoral 
Trata-se de um dos principais barómetros que afere o entrosamento das pessoas com a política. Neste domínio, os dados são claros: a abstenção tem aumentado significativamente, o que significa que os cidadãos estão a demitir-se das decisões públicas. 
 Movimentos de cidadãos 
Afirmar que o divórcio da política tem que ver com a mudança de hábitos e rotinas, resultantes de uma vida mais agitada, seria redutor na medida em que apenas se analisa, isoladamente, a participação político-partidária. Mas se correlacionarmos a participação política com a envolvência das pessoas em causas associativas, verificamos que existem cada vez mais pessoas a intervir. Curioso é também o surgimento de movimentos de cidadãos, também com o intuito de intervirem na política e que se têm apresentado em atos eleitorais - quando a lei o permite. 
 Decorrente da necessidade de repensar a política e o seu relacionamento com a sociedade, importante e transversal a todos, enunciam-se seis motivos que podem servir de reflexão para o exercício de análise no que concerne ao distanciamento entre os políticos e os cidadãos: 
- Agenda Política Os partidos políticos, envencilhados nos seus compromissos internos, tendem a colocar na agenda assuntos que nada interessam ao dia-a-dia dos cidadãos. Atualmente, particularmente na conjuntura em que vivemos, por via de imposições europeias e nacionais, os princípios tecnocratas da alta finança são exemplo da agenda política desajustada. Um país resignado a um plano que pode fraquejar a todo o momento, por condicionantes exteriores, aplica todos os meios e energias no seu cumprimento relegando para segundo plano o que verdadeiramente aflige as populações. -Sequestros mediáticos Quando a política se materializa e resigna aos momentos mediáticos e aos órgãos de comunicação social, aceitando que aquilo que reproduzem representa a vontade das populações, está-se a perder o tato e a sensibilidade sobre os reais anseios e preocupações dos cidadãos.
 -Perda de Identidade 
Perder a identidade por via da ação política é o mesmo que matar um partido. Quando esgotados os argumentos políticos, e muitas vezes numa lógica de desespero, optam-se por pactos que não são mais do que ilusões demagógicas. Nesse aspeto é curioso verificar que certas coligações esvaziam ideologicamente as partes envolvidas, juntando moderados e radicais. 
 -Política destrutiva 
A política, pela negativa, em que apostam as oposições sem que se apresentem opções alternativas e realistas, não presta um bom serviço à democracia. As oposições tendem a esquecer-se que quem vence as eleições tem um programa a cumprir e que cabe a quem foi derrotado apresentar propostas alternativas. O que se verifica na prática é que a oposição, na senda do desalinho para com o poder vigente, mesmo quando apresenta propostas tende a optar por posições radicais, e até mesmo irreais, desajustadas e inviáveis.
 -Oportunismo 
Servir as pessoas com base no oportunismo é um dos sintomas mais nefastos para a atividade política, uma vez que os cidadãos apercebem-se que na adoção desse método não há coerência, e que os fins e as ambições, mesmo que legítimas, suplantam os fins comuns. Na política não deveria haver espaço para discursos dúbios e posturas que servem apenas para alimentar o ego de certas individualidades - desfasadas das pretensões das populações. 
 -Palavra 
A palavra dos políticos é uma das questões que mais faz desacreditar os cidadãos. Quem está fora da atividade política assume que na política não há palavra, que aquilo que se admite ser compromisso hoje, amanhã, sem qualquer justificação, pode ser uma coisa totalmente diferente. Também neste aspeto os programas e as causas defendidas em campanhas eleitorais não têm qualquer repercussão na prática, melhor dizendo, não defendem nem honram o voto que receberam. 
 Tantos outros motivos poderiam ser enunciados mas, os que aqui são apresentados servem de mote para reflexão. É importante encontrar atitudes que envolvam de novo os cidadãos na política democrática. As ideias, a coerência, o realismo, a lealdade, a audácia e a humildade deverão prevalecer sobre todos os outros comportamentos e atitudes. Por sua vez, a proximidade e os métodos de aferir a sensibilidade das pessoas deverão ser aprimorados para que a ação política seja o retrato dos desejos do povo. Quando os valores e as causas são esquecidos, quando alguns apenas contam somar votos, a política não poderá estar no bom caminho. Nada na política pode ser feito nas costas dos cidadãos e tudo na política deve ser feito com base na materialização da vontade popular. Como em tudo na vida, há bons e maus exemplos de ética na política, exemplos esses, onde o povo está sempre em primeiro lugar e onde a confiança do voto é expressa pelos políticos em atos e resultados. No caso concreto da Região Autónoma da Madeira, apesar de no período da autonomia um só partido ter merecido legitimidade do povo para governar, a ação tem-se consubstanciado em princípios enraizados e com uma linha de orientação onde cada cidadão e cada problema é uma prioridade. Tantas outras regiões e tantos outros políticos, que primam por imagens polidas e politicamente corretas, não praticam a tão apregoada ética na política. Sá Carneiro dizia que "A política sem ética é uma vergonha”. Tinha ele toda a razão, porque a ética na política é um conceito basilar mas que, infelizmente, tende a desaparecer.